sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio 2016! E agora?

E o Rio ganhou! Será sede dos Jogos Olímpicos de 2016! Mas e agora? Qual foi o caminho percorrido até a vitória? Quais são os desafios daqui pra frente? Quais os riscos que corremos? É sobre isso que vamos falar nesse post de retorno, encerrando o breve intervalo sem novas postagens, cujo motivo foi a falta de tempo.




Uma breve história das candidaturas olímpicas do Rio.

Não levando em consideração as intenções olímpicas antes da redemocratização brasileira, o sonho de realizar as jogos na nossa cidade começou a se tornar realidade em 1993. Encorajado por João Havelange e Roberto Marinho, o então prefeito Cesar Maia lançou candidatura para sediar os Jogos de 2014. Os três sabiam que a vitória não seria de primeira, mas que este era o início de um processo de aperfeiçoamento, de tentativas, que culminariam no resultado esperado.

Na escolha em 1997, o Rio foi desclassificado na primeira fase. Em 2002, a cidade foi escolhida para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007, e aí os ventos começaram a soprar a favor. Numa nova tentativa, desta vez pelos Jogos de 2012, ainda em 2004 o Rio foi novamente desclassificado, e na fase preliminar. Esses dois últimos acontecimentos (escolha para sediar Pan-2007 e desclassificação nas preliminares por JJOO-2012) foram cruciais para que alcançássemos a maturidade de projeto e comprometimento político para conquistar Rio 2016.
Os projetos apresentados ao Comitê Olímpico Internacional para concorrer à sede, tanto em 1997 por 2004, como em 2004 por 2012, eram simplesmente isso: projetos. Não havia quase nada de concreto, poucas garantias de viabilidade, muitas construções grandiosas a serem erguidas e pouco apoio de patrocinadores. E o COI aconselhou o Rio a se dedicar ao Pan-2007, para mudar essa situação. Juntos, Prefeitura do Rio e o Comitê Olímpico Brasileiro seguiram à risca esse conselho.

Todos os equipamentos dos Jogos Pan-Americanos Rio 2007 foram reformulados, e construídos em nível olímpico, triplicando o orçamento inicial, mas garantindo vitórias futuras, como a Copa de 2014 e agora as Olimpíadas de 2016. Ao invés de um ginásio poliesportivo, foi construída a Arena Multiuso do Rio, de altíssimo padrão e que trouxe para a cidade inúmeros eventos. Ao invés de utilizar as piscinas do Júlio Delamare, no complexo do Maracanã, foi construído o Parque Aquático Maria Lenk, que receberá, sem nenhuma obra de adição necessária, todas as competições de saltos ornamentais e pólo aquático em 2016. Ao invés de um pequeno estádio, foi construído o Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, uma das maravilhas arquitetônicas brasileiras, que revitalizou e valorizou o bairro do Engenho de Dentro, e é usado nas partidas dos campeonatos de futebol, estando sob administração do Botafogo. Sem falar do Velódromo, de altíssimo nível, o Complexo Esportivo de Deodoro, a reforma do Maracanã, e inúmeros equipamentos.

O Rio de Janeiro realizou os melhores Jogos Pan-Americanos de toda a história, e se havia alguma sombra dúvida quanto ao legado do Pan para a cidade, ela se desfez agora: são as Olimpíadas de 2016!


Mas não foi só isso. O Comitê Organizador da candidatura do Rio para os JJOO-2016 (CO-RIO) fez um primoroso trabalho, organizando todo o projeto com estudos, escolhendo as melhores opções para apresentar ao COI, acompanhando a capacidade de desenvolvimento não só da cidade, mas do país, e apresentando uma proposta grandiosa, mas viável e de excelência.
Graças a ousadia, perseverança e trabalho duro de homens como Carlos Arthur Nuzman (presidente do COB), João Havelange, Roberto Marinho e Cesar Maia, esta empreitada não só é possível, como agora é real.


Sete anos de trabalho pela frente.

Apesar da conquista, muita coisa ainda tem que ser feita, e o Rio teve como pontos fracos apontados o sistema de transportes e a quantidade de quartos de hotel disponíveis. A iniciativa privada, ciente dos grandes lucros em potencial, certamente dará conta de fechar a conta de leitos necessários, tanto para a Copa de 2014 quanto para 2016. Mas na área de transportes, a situação é realmente preocupante. Não só pela situação atual, mas também pelos pífios projetos apresentados, que chega a ser um retrocesso para o sistema de transporte de massa do Rio de Janeiro.



  • Transportes:
Em breve teremos um post falando sobre a malha metroviária do Rio, projetada nos anos 60 e planejada para estar completa até o ano 2000, com verba destinada no orçamento desde aquela época. No entanto, todos sabemos que as coisas não foram dessa forma. A cidade tem duas linhas de metrô, ambas incompletas, que estão sendo unidas por um projeto insano. A melhor alternativa para os Jogos de 2016 seria leva o metrô até a Barra da Tijuca, onde se concentrarão cerca de 50% das competições realizadas, através da linha 4, de Botafogo até o terminal Alvorada. No entanto, essa alternativa não foi apresentada ao COI. Um dos motivos é a falta de verba. O outro é a falta de vontade política. O Governador Sério Cabral até cogita a possibilidade de construir Linha 4 até a Barra, mas em um novo traçado, que só atende aos interesses das empreiteiras envolvidas e da concessionária que administra o MetrôRio, e descarta totalmente o projeto original. Os investimentos no Metrô prevêem a compra de novos trens e reforma dos antigos.

A "grande inovação" projetada para os transportes foram os corredores de BRT (Bus Rapid Transit), semelhantes aos implantados no Paraná, pelo ex-governador e urbanista Jaime Lerner. É uma alternativa mais barata, mas definitivamente não é a melhor escolha para o Rio. Três corredores foram propostos, o Barra-Penha (T-5), Barra-Zona Sul (via alargamento da Auto Estrada Lagoa-Barra) e o Barra-Deodoro. Fora o Corredor T-5, que já era previsto para o Pan-2007, os demais não tem projeto nem traçado detalhado, e há duvidas quanto a sua eficácia. Além do mais, colocar mais ônibus nas ruas, mesmo que expressos e de grande capacidade, nunca é uma boa opção.

As linhas da SuperVia só receberão novos trens, e talvez um novo sistema de sinalização. Nada de equiparar a qualidade dos trens à do metrô ainda.
Mas acho que a pior idéia até agora foi a do prefeito Eduardo Paes: Instituir rodízio de carros no Rio, como em São Paulo! Com uma engenharia de tráfego competente e investimentos maciços no Metrô, essa aberração não será necessária. Mas esperar isso do nosso prefeito é demais...



  • Grandes instalações = Elefantes Brancos?

Como já falamos, cerca de 50% das competições em 2016 serão realizadas na Barra, sem contar a Vila Olímpica e a Vila de Mídia. É lá também que a maior parte das instalações será construída do zero, já que serão obras específicas para a Olimpíada. Dessa forma, o Autódromo Nelson Piquet deixará definitivamente de existir, para dar lugar ao Complexo da Cidade dos Esportes. Serão disputadas 12 modalidades no complexo, entre elas: basquete, judô e taekwondo, lutas, handbol. Serão construídos também um novo estádio aquático, para as provas de natação e nado sincronizado, e centros de hóquei sobre grama e tênis. Heranças do Pan-2007, a Arena Multiuso receberá a ginástica olímpica, rítmica e de trampolim; o Velódromo terá ciclismo; e o Parque Aquático Maria Lenk, pólo aquático e saltos ornamentais. Que benefícios pós-Jogos esses equipamentos trazem para a cidade? Como serão usados e mantidos? Qual o impacto imediato dessas instalações no local? Tudo isso ainda é incerto, e preocupante.


Conheça melhor os planos para 2016:




A área escolhida para a Vila Olímpica é valorizada, e a sua construção só deve impulsionar o avanço da especulação imobiliária. Os demais locais de competição, como Engenhão, Maracanã, Aterro do Flamengo, Lagoa, Copacabana e Deodoro já possuem as instalações prontas ou serão temporárias. Como aliar a realização dos jogos ao desenvolvimento urbano? A resposta está em Barcelona, sede dos Jogos Olímpicos de 1992. Foi um divisor de águas na história daquela cidade, que se revitalizou e modernizou completamente, entrando de vez no mapa do turismo internacional, sendo atualmente a terceira mais visitada da Europa.

O custo dos Jogos de Barcelona é estimado em R$ 25 bilhões, em valores atuais, muitas vezes a mais do que o orçamento inicial, mas valeu a pena. A cidade antes industrial, violenta e sem vida se tornou a mais moderna da Espanha. A Vila Olímpica foi construída numa área antes degradada, perto do porto, onde haviam presídios e fábricas. Com a Vila, um novo bairro surgiu, voltado para o mar, e foi a região que mais cresceu e se desenvolveu naquela cidade. No total, Barcelona abriu 40 km de ruas, fez 220 km de redes de esgoto e construiu 75 novas instalações esportivas. Dois anos após os jogos, foi registrado um aumento de 22% no número de turistas.

Eduardo Paes incluiu a tão esperada Revitalização do Porto do Rio na conta das Olimpíadas, mesmo sem nenhuma instalação olímpica estar planejada para a Zona Portuária. Como o carioca já espera sentado há anos por essa grandiosa obra de revitalização, é difícil acreditar que alguém com a credibilidade da palavra questionável como nosso prefeito vá realmente realizá-la. Coisas muito menores foram prometidas na campanha e convenientemente esquecidas e/ou ignoradas.

É um grande desafio, mas também uma grande oportunidade. O Rio tem que lembrar de seus erros passados, aprender com os acertos dos outros, e trabalhar duro para realizar com primor a primeira Olimpíada da América do Sul. Vamos torcer para que o que andam dizendo no twitter não se torne realidade: RIO2016 = CPI2017. E agradecer a Deus por, em 2016, não termos mais que aturar nem o Lula nem o Sérgio Cabral (e tomara que o Eduardo Paes também não).


Para finalizar, fiquem com o belíssimo vídeo apresentado ao COI pela delegação brasileira: